segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Weird goodbyes

“O Silvestre morreu esta manhã.”

Antes desta frase o mundo igual. Podia levantar-me, queixar-me de acordar cedo, dormir menos do que as prescritas 8 horas, ter conversas medianas no emprego, regressar a casa com fome de jantar e uma conversa repleta de gatos a acolher-me a alma desta mediocridade dos dias iguais.

Depois desta frase, umas cascatas nos meus olhos sem esforço. O ridículo de sofrer tanto por um gato. E, no entanto, sem gatos, que resta? As tuas patas desproporcionalmente grandes. A tua pele colada a mim, à minha mãe, ao Miguel. E agora todos despidos. Esta colecção de dores. Mesmo com medo da morte, uma súbita vontade de acabar.

Quero voltar a Dezembro. Quero queixar-me da tua selectividade – um fidalgo. E de seres uma lapa. Um sofá, uma cama, um corpo estendido, e lá estavas. Horas sem nos mexermos não fosses abandonar o posto, e que dor quando abandonavas o posto. E agora, como fazer quando abandonaste o posto para sempre? Eu prometo que não me mexo uma vida inteira e mesmo assim não voltas.

Agora volto àquela dança com o tempo. Esperar que passe, que o teu corpo debaixo dos cobertores não arranque os meus olhos. Que o corpo aguente mais esta vez. A vida é uma colecção de dores. E, subitamente, uma lembrança do teu corpo ao sol no jardim, a solicitar festas, despreocupado com as minhas obrigações ou o chão molhado. E talvez se me lembrar que foste feliz, talvez amanhã me consiga levantar e aguentar o mundano da vida.